sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Piratini e os casais açorianos

"Se queres prever o futuro, estudo o passado." (Confúcio)


Durante um longo tempo estacionei minha pesquisa da história da Família, não haviam mais fontes, já havíamos esgotado os documentos de família, as histórias contadas pelos membros mais antigos e em uma oração eu coloquei nas mãos de Deus a continuação deste trabalho.
Certo dia precisando viajar a outra cidade próxima para consulta médica um amigo pediu que entregasse um livro a seu irmão que residia nesta cidade. Como a viagem duraria 4 horas de ônibus resolvi abrir o livro para passar o tempo.
E para minha surpresa e alegria sem fim ao folhear o livro encontrei ali várias gerações de ancestrais, era e ainda é uma fonte inesgotável de dados, sei que O Pai Celestial providenciou tudo para que eu pudesse dar continuidade na História da Família.
Esta preciosidade chama-se  "Povoadores de Piratini" escrito pelo inspirado Jayme Lucas d'Ávila, que agora sei que também partilhamos da mesma raiz genealógica.




Em 1494, Portugal e Espanha firmaram o Tratado de Tordesilhas. Por esse tratado, foi estabelecida uma linha imaginária, que corria no sentido norte-sul, distante 370 léguas a oeste do arquipélago do Cabo Verde. As terras que ficassem  a leste desta linha pertenceriam a Portugal e, a oeste, à Espanha. Assim, grande parte do Brasil de hoje todo o Rio Grande do Sul pertenceriam a Espanha. Passados mais de dois séculos do descobrimento é que chegam aos campos de Viamão as primeiras expedições, com o propósito de se estabelecer no Continente de São Pedro (Rio Grande do Sul).





A emigração de casais açorianos para o Brasil começou no Século XVII, quando 50 famílias constituídas por 219 pessoas embarcaram, no dia 29 de março de 1677, no barco Jesus, Maria e José em Horta, Ilha de Faial, com destino ao Grão Pará, atual Estado do Pará,.

Em meados do Século XVII começou a se realizar, por determinação das autoridades de Lisboa, uma bem sucedida experiência de colonização do tipo moderno mediante a fixação de famílias ao solo. Essa imigração em massa visava defender e povoar os atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, pois a Coroa estava convencida que a melhor maneira de garantir a posse da terra era povoá-la. Assim, imigraram para o Brasil a partir de 1732 milhares de colonos ilhéus oriundos do arquipélago dos Açores.

Em 31 de agosto de 1746, o rei DOM JOÃO V de Portugal comunicou aos habitantes das ilhas dos Açores que a Coroa oferecia uma série de vantagens aos casais ilhéus que decidissem emigrar para o litoral do sul do Brasil. Nos termos de um edital fartamento distribuído pelas nove ilhas do arquipélago as vantagens do convite eram evidentes:
- "haverá um grande alívio nas ilhas porque elas não mais verão padecer os seus moradores, uma vez que vão diminuir os males da indigência em que todos vivem;"
- "haverá um grande benefício para o Brasil, já que os imigrantes irão cultivar terras ainda não exploradas."
O edital acenava com uma série de mordomias, a partir do "transporte gratuito até os citios que se lhes destinarem para as suas habitações. E logo que chegarem aos citios que haverão de habitar, se dará a cada casal uma espingarda, duas enxadas, um machado, uma enxó, um martelo, um facão, duas facas, duas tesouras, duas verrumas, uma serra com sua lima e travadeira, dois alqueires (27,5 litros) de sementes, duas vacas e uma égua. No primeiro ano se lhes dará a farinha, que se entende bastar para o sustento, assim dos homens como das mulheres, mas não às crianças que não tiverem 7 anos e, aos que tiverem até os 14, se lhes dará quarta e meia de alqueire para cada mês. Se dará a cada casal um quarto de légua em quadra, para principiar as suas culturas, sem que se lhes levem direitos nem salários algum por esta sesmaria. E quando, pelo tempo adiante tiverem família com que possam cultivar mais terra, a poderão pedir ao governador do distrito".

Sua Majestade definiu que o primeiro estabelecimento de casais açorianos seria feito na Ilha de Santa Catarina e nas suas vizinhanças, "em que a fertilidade da terra, abundância de gados e grande quantidade de peixes conduzem muito para a comodidade e fartura desses novos habitantes".

Em menos de um ano, 7.817 pessoas declararam o desejo de se transferirem para o outro lado do Atlântico. Uma Provisão Régia do rei DOM JOÃO V, de 9 de agosto de 1747, determinou ao brigadeiro JOSÉ DA SILVA PAES, então governador da capitania da Ilha de Santa Catarina, que tomasse cuidado em tratar bem os novos colonos: 

"O dito brigadeiro porá todo o cuidado em que estes novos colonos sejam bem tratados e agasalhados e, assim que lhe chegar esta ordem, procurará escolher assim na mesma Ilha, como nas terras adjacentes, desde o Rio de São Francisco do Sul até o Serro de São Miguel, nos altos da Serra do Mar, e no sertão correspondente a este distrito, com atenção porém que se não dê a justa razão de queixa aos espanhóis confinantes".

Muitos açorianos imigraram para o sul do Brasil porque a miséria grassava no Arquipélago, na era de Setecentos, como resultado do fraco desenvolvimento das ilhas na produção do trigo e do pastel (outrora, a sua maior riqueza), acrescido do excesso demográfico que atingiu um caráter cíclico nas ilhas maiores. Os açorianos aparecem na história do Brasil em diversas regiões e estão distribuídos pela Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, S. Paulo, Amazonas, Pará, Paraíba, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Atualmente, vivem no Brasil 1 milhão e 200 mil portugueses, sendo a maior parte açorianos e seus descendentes.





Na década de 1780, a Vila do Rio Grande de São Pedro (hoje Rio Grande, RS), contava com três distritos, sendo: 1º distrito, a Vila de Rio Grande; 2º distrito, o Povo Novo; o 3º distrito, o Serro Pelado. O "Serro Pelado" ( atual Piratini) era uma grande área que abrangia, na época, extensão muito maior do que o atual município de Piratini. Esse local era uma elevação com 215 metros de altitude, localizado próximo a cidade de Cerrito, entre o Rio Piratini e o Arroio das Pedras, ainda tem hoje o mesmo nome e é visível por quem transita pela BR 293,na altura do km 45, a direita de quem viaja em direção a cidade de Pelotas.




A região no sul do Rio Grande do Sul era muito almejada por castelhanos no século XVIII, que insistentemente tentavam apropriar-se daquelas terras.


Esta insegurança, provavelmente tenha sido o principal fator que motivou o chefe militar Rafael Pinto Bandeira, a indicar a ocupação da área. A solicitação de Bandeira foi acatada pela rainha de Portugal, Dona Maria I, que ordenou em 06 de julho de 1789, a criação de um povoado naquele local.

As terras, pertencentes a José Antônio Alves, foram permutadas com aquele estancieiro.  A escolha dos açorianos deu-se devido ao seus conhecimentos sobre agricultura, que poderiam ser utilizados naquelas terras.

Eles ficaram estabelecidos a margem direita do Rio Piratinym Mirim (atual passo da Batalha). No local, produziam algodão, trigo, cevada e demais produtos. Havia um morador chamado Antônio José Vieira Guimarães, que devido a devoção dos açores a Nossa Senhora da Conceição, doou um terreno para construir uma capela para a santa.

Com a construção do local de orações, foi-se formando um núcleo nas proximidades da capela. A povoação, aproximadamente em 1790 foi denominada Nossa Senhora da Conceição do Piratinym.


Mesmo antes da instalação dos casais açorianos, a região já era ocupada por muitos criadores, com ou sem títulos legítimos. 
Ao todo foram 67 casais a quem foram concedidas datas de terras no distrito de Cerro Pelado (Piratini), conforme certidões de 6 de julho de 1789.
Os açorianos que vieram para Piratini, foram os troncos principais de grande parcela das famílias piratinenses.
Além dos casais de número ou casais d'El Rei, outras famílias vieram para Piratini, nos primeiros tempos do povoamento. Eram oriundos de diversas povoações do Brasil, Espanha,  Portugal e outros países.
A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Piratini, criada em 1810, abrangia na sua área os atuais municípios de Piratini, Pinheiro Machado, Candiota, Hulha Negra e parte de Bagé. Quando foi criado o município, em 1832, incluía também Canguçu, Cerrito, Pedro Osório, Arroio Grande, Jaguarão, Herval e as outras já citadas.

A paisagem de Piratini lembrava e muito as paisagens de Portugal, e a arquitetura é uma das marcas deixadas pelos portugueses no Rio Grande do Sul.




Dentre estes estava meu hexa avô José Garcia de Vasconcelos, nascido na Ilha do Pico, Açores, Portugal, casado com Rita Gonçalves Coutinha, natural de Curitiba, PR. 
Meu avô materno Moacyr Garcia de Oliveira, casado com Maria Antonia Brião Cabrera era filho de Bernardino Anúncio de OliveiraFrancisca de Paula Garcia, filha de Joaquim Felix Garcia e Candida Garcia de Vasconcelos, ele, Joaquim Felix,  era bisneto de José.
José recebeu sesmaria com 2 léguas de comprido e 1 légua de largo em 20 de abril de 1797. Localizada na primeira orqueta do Piratini, dividindo-se ao norte com o Rio Piratini Menor, confrontando-se com a estância do Capitão Antonio Xavier de Azambuja.

Neste livro também descobri que a Família Sandim teve origem em Piratini através de Manoel Teixeira de Figueiredo que teria adotado o nome Sandim quando veio para a Colônia,  ele faleceu em 24 de dezembro de 1784 em Rio Grande com 60 anos. Seu filho Manoel Pereira Sandim casado com Euzébia Maria da Conceição são pentavôs do autor, e meus hexa avós. Meu bisavô materno do lado de meu avô, Bernardino Anúncio de Oliveira era filho de Bernardino Soares de OliveiraLeonidia Lourença Sandim, que era neta de Manoel Lourenço Sandim, filho de Manoel Pereira Sandim.

Sandim é uma freguesia portuguesa do concelho de Vila Nova de Gaia, com 15,97 km² de área e 5 938 habitantes. Densidade: 371,8 hab/km². Em termos de área, é a segunda maior freguesia de Vila Nova de Gaia.
Imagens de Sandim, Portugal:









"O passado não reconhece o seu lugar, Está sempre Presente."
Mário Quintana

É importante deixar aqui meu agradecimento a Jayme Lucas d'Avila que pesquisou, organizou e publicou este tesouro que conta um pouco da história de nosso povo e apresenta uma genealogia completa de várias famílias desta região.
Fonte: 
D'Avila, Jayme Lucas. Povoadores de Piratini. Porto Alegre: Suliani letra&vida, 2007.

8 comentários:

  1. Prezada Ana,
    encontrei seu blog ao acaso, e fiquei feliz em saber que há uma obra como a que mencionas, relativa a Piratini. Também travei em um ramo de ancestrais meus... e que, ao que tudo indica, é de Piratini. Deixo aqui os nomes deles, para o caso de eventualmente poderes me auxiliar. Trata-se do casal Antônio José de Carvalho e Selinda/Zelinda Rodrigues Alves, casado por volta de 1820/1830.
    Abraços,
    Cassiano

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  2. p.s.: se quiseres me responder por email, podes escrever para borowsky.cassiano@gmail.com.

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    1. Olá Cassiano!
      Respondi seu e-mail, manterei contato.

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  3. Olá Ana, tudo bem?
    Sou descendente em sexta geração de Carlota Maria da Conceição Sandim, filha do capitão Manuel Lourenço Sandim e de Luciana Pereira da Silva. Por gentileza, entre em contato comigo pelo e-mail jana.xavier@pelotas.com.br

    Janaina Xavier

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  4. Interessantissimo. Estou na minha 4a geracao de ascendentes, de Piratini, Ricardo Francisco Ferreira (1831-?), casado com Feliciana Maria Oliveira (1832 - ?). Muitos nomes se repetem, é incrível. Se puder me dar mais informacoes de como avançar neste passado, agradeço. Maria do Carmo de Oliveira Porto Lomba (carminha_porto@yahoo.com.br)

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  5. Teria alguém informações da origem da família torma, thormann, em 2° distrito de Piratini? Meu avós Italo Alves torma e Sophia estephania tatarski torma, meus bisavos, Amâncio Maurílio thormann e leopoldina alves, Leopoldina Alves filha do capitão José Antônio Alves... agradeço qualquer informação.

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    1. Olá . Eu me chamo Marta Maria Torma Souza eu também sou neta materna de Italo Alves Torma e Sophia Estefânia Tatarski Torma , meus bisavós Amâncio Maurílio Thormann e Leopoldina Alves filha do capitão José Antônio Alves . Por parte paterna neta de Alfredo Anselmo de Souza e Elida D ' Ávila Souza .

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  6. Estou pesquisando minha familia cujo ancestral lutou na revolução Farroupilha e se chamava Querubim Candido Pereira de Queiroz morador de Piratini e amigo intimo do então Ministro da Guerra e Fazenda Domingos José de Almeida(tenho as cartas que foram trocadas entre eles durante a revolução). Gostaria de saber se tu tens alguma informação para me passar como data de morte do referido e da esposa Anna Gomes. Querubim nasceu em Serro Frio MG e foi para o RS na companhia do amigo Domingos. Os filhos nasceram em Piratini. Talvez tenham dados sobre ele no Povoadores de Piratini do Jaime L.D"Avila, não consigo achar nas livrarias aqui de Campinas. Grato por qualquer ajuda! Adélia Malinowski Salles. email adeliamalin@yahoo.com.br

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